segunda-feira, 25 de abril de 2011

Arco-íris

Encontrava-se sentado em um dos bancos de uma antiga e pacata praça, pensativo, quando a leve chuva deu lugar a um tímido Sol. Observou o horizonte, buscando detalhes até onde sua vista permitia. Apreciou a brisa que chacoalhava as árvores e criava, junto ao mar, um fundo musical que o relaxava. Notou o arco-íris, que mais parecia uma ponte colorida entre um mundo e outro. – Por que não seria? – Levantou e caminhou lentamente pela costa enquanto continuava a pensar, divagar, buscar. Parou por uns segundos, acendeu um cigarro da forma que sempre fazia, tragou, respirou fundo, decidiu-se e continuou sua caminhada. Por um longo tempo, vagou como se fosse sua própria sombra, quase sem pronunciar quaisquer palavras, apenas olhando para si mesmo, tentando se encontrar, purificar-se, matar a dor. No curso dos dias, chegou a um rio, banhou-se nele e atravessou-o. Nasceu de novo enquanto viu sua antiga vida esvanecer seguindo a correnteza. Olhou através de seu reflexo na água, procurou o caminho. – Do outro lado do rio, uma vida se vai. Deste lado do rio, uma vida se inicia. – Andou sob o Sol, a chuva torrencial, a Lua, as estrelas; sobre o asfalto, a terra, a areia, a grama, a rocha. Um dia, avistou novamente o arco-íris e mudou seu caminho. Foi levado ao deserto, caminhou por dias sem direção ou rumo, encontrou uma flor de lis, colheu-a e seguiu a direção indicada. Encontrou água, comida e um homem. O homem acompanhou-o para que saísse do deserto, ensinou-o a dançar segundo a música produzida pelos astros e contou-lhe segredos, advertindo-o para somente pratica-los caso não houvesse alternativa. Ouviu calado as respostas para suas perguntas, soluções para seus problemas e os segredos do conhecimento adquirido em uma vida. Por último, o homem prometeu leva-lo onde desejava chegar. Seguiu-o até uma colina, onde havia uma árvore que se destacava. Pronunciou as palavras que lhe foram ensinadas, uma passagem se abriu. Entrou, encontrou um grande pote repleto de ouro e pedras preciosas e, sobre ele um papel amarelado no qual estava escrito:
 - Você caminhou nas sombras e sob a chuva, atravessou o deserto e nasceu de novo. O vazio pôde te mostrar o que estava oculto em seu próprio abismo e limpou-te de toda a sujeira que o soterrava. Agora teus sonhos têm forma e você tem um nome.
Deixou tudo como encontrou, saiu, pronunciou as palavras para que a passagem fosse fechada e retornou ao seu lugar de origem.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O caos no chão do meu quarto sou eu

Pensei em te escrever algo simples, compreensivel. Algo que não envolvesse signos provenientes do meu subconsciente, ou metáforas simbolistas e enteogenia. Algo que ajudasse-nos a pensar numa resposta, sem tornar necessária a busca de significados.
Pensei em falar sobre meus sonhos, meus medos, minhas alegrias, minha dor, minhas crenças, minhas dúvidas, minhas vontades, minhas obrigações e tudo o que eu pudesse tornar claro o suficiente pra fazer-te entender.
Pensei em escrever em prosa, numa folha adornada manualmente e à moda antiga, com bordas vintage e uma caligrafia bem trabalhada. Achei que funcionaria do mesmo modo se fossem versos escritos de modo espontâneo. Lembrei que imagens dizem mais que palavras.
Pensei em inícios, meios e fins, alternei as ordens, testei sinônimos e antônimos, linguagem formal, coloquial, mas não havia algo que pudesse traduzir essa mistura de ansiedades que nunca saiu de mim.
Desisti.
Agora, eu olho para o chão e só vejo o caos trazido por rascunhos de desenhos, textos e sentimentos espalhados por todo lado, mas não penso em organizar ou mudar de lugar, porque isso me faz conseguir enxergar o que nunca tinha visto. O caos no chão do meu quarto sou eu.