quarta-feira, 20 de novembro de 2013

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Encontrei setecentos pedaços de papel
E os deixei pelo caminho, como uma trilha.
Deixei, por aí, noventa setas que indicavam a direção.
Onde isso me leva? – Qualquer um diria.
Desenhei um rosto sem olhos,
Pra não criar um personagem surreal,
Porém meu desenho jamais enxergaria.
Tudo pareceu borrado demais.
Escrevi uma música, também,
Mas minhas palavras ficaram ininteligíveis.
Preguei cartas, e peças, e partes, e enigmas na parede,
Só pra criar um pequeno quebra-cabeça.
Sempre tive a sensação de que meus semelhantes gostam de ser capazes.
Então, resolvi falar,
E contei uma pequena parábola
Daquelas que ouvimos e procuramos o sentido no fim.

E, finalmente, estou aqui tentando fazer algum sentido.

sábado, 9 de novembro de 2013

Eye Contact

Céus sempre escuros.
Noites ou dias nublados parecem ser a preferência individualmente coletiva e,
Às vezes, coletivamente individual.
Trazemos a escuridão à luz,
Não pra iluminar,
Só pra expor
Sem modificar o que é,
Porque as portas não serão abertas aos que carregam velas.
Não precisamos de luz, se vemos no escuro,
Então é permitido entrar no labirinto,
Mesmo esperando-se que o caminho de saída não seja encontrado, pois talvez não exista.
Não queremos luz em nossos passos, mas deixamos o aviso em tinta preta, na porta de entrada:
- Se sobreviver o suficiente pra sair, saiba que sua cor ficou.

sábado, 19 de outubro de 2013

Sem título

Pai, você disse que antes de pedir, eu já teria.
Eu quis tudo e não pedi nada.
Eu só andei por aí aproveitando. Porque eu tinha, não tinha?
Não sei se meu bolso estava furado,
Se eu não tomei conta, se dei, se joguei fora.
Eu me encontrei jogado na rua, sujo e faminto.
Eu pedi, Pai, mas não me deram nada
E, quando não havia mais solução, eu peguei.
Eu sabia que eles viriam atrás de mim,
Eu corri e me escondi, com tudo que era deles, Pai.
Agora eles querem tudo, querem que eu devolva.
Querem me ver morto, sem nada.
Agora eu não quero nada, Pai, não vou pedir nada,
Só quero o perdão da dívida.
Quero ser absolvido, quero que esqueçam.
Você disse que antes de pedir eu já teria.
Posso ficar com o que eu já tenho?
Eu não pedi, Pai.
Sempre foi meu, certo? Por que o preço?
Não entendo.

Um místico, outro dia, me disse
Que não existe anjo bom,
Que todos eles foram embora,
E que o Senhor ficou aí em casa sozinho.
Eu te escuto, Pai, se quiser falar.
Eu já fiquei sozinho, já me senti mudo.
As vezes ninguém sabe as nossas
Intenções por trás das atitudes
E isso faz a gente parecer rude.
Eu passei por isso, Pai, pode falar.
Já me disseram que eu machuco inocentes,
Mas eu nunca peguei numa arma, Pai.
Por que eles dizem isso?
Ouvi o mesmo de você.
Será que é genético?
Eles não entendem, Pai,
Eles não querem  responsabilidade.
Eles não nasceram no meu berço.
Eu te entendo, Pai, mas não entendo seu preço.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Digressão

É impossivel dizer se é realidade ou alguma distorção desta.
Palavras transtornadas em digressão e delírios fluem.
Você não pode continuar no seu rumo. Você não consegue.
Apontar seu destino é limitador demais pra você
Escorregar por outros planos de existência parece interessante
E dentro de si mesmo provavelmente há mais

Mas vocês sabem. Todos sabem.
Vocês não podem mantê-lo satisfeito

Sorrisos eram tudo o que você queria ontem
Sorrisos te enfurecem hoje,
Quando sua alma está centrada em algo mais profundo.
Escuro, intrínseco e áspero.

Todos eles parecem cegos e idiotas
Inconscientes da verdadeira realidade
Das correntes que os retém
De suas almas sendo compradas e vendidas
De suas verdades sendo distorcidas
E sua liberdade sendo limitada por falsos provérbios.

Mas vocês sabem. Todos sabem.

Vocês nunca estiveram satisfeitos.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Colisão

Eu vi Venus e Marte colidirem
Quando ambos saíram de órbita.
Rapidamente, vi as marés subirem
E o céu ficou claro durante muitos dias.
Vermelho de um lado, azul de outro.
O por do Sol agora era verde,
Com momentos tendendo ao azul, aqui no lado vermelho.

A lua aproximou-se consideravelmente,
Quase colidindo conosco
E causando intensas e rápidas mudanças climáticas.
As ondas, agora, agrediam as cidades costeiras
E foi necessária a desocupação das mesmas.
Apesar dos transtornos, nós sobrevivemos facilmente.

Após poucas semanas em chamas
A colisão expeliu um meteoro dos restos dos planetas
Que, para a nossa sorte, atingiu apenas a Lua,
Causando enormes catástrofes à humanidade.
Os astrônomos desesperavam-se cada dia mais,
A população lançava-se de predios e precipícios,
A órbita terrestre foi alterada e previa-se que o ano agora teria 510 dias
E circundaria de forma errante o Sol.

Apesar do medo, havia uma paz diferente no ar.
O céu nos cortejava nos inícios e fins de dia,
Trazendo cores quase sempre inesperadas,
E coisas que nós humanos nunca imaginaríamos.
Os astrônomos não queriam mais prever problemas,
Pois apreciavam a visão que agora tinham do universo.
A humanidade acostumou-se a enfrentar desastres mais frequentemente,
A abandonar lugares, pessoas, objetos, visões, crenças e o que mais houvesse,
Pois sentiam-se mais conectados a si mesmos e à Terra.
Depois de tudo, ninguém mais queria impedir as mudanças.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mesa

Já havia uns anos que eu não passava por lá, mas resolvi alterar a atual rotina e relembrar a antiga. Sentei na mesma mesa, pedi a mesma cerveja, fui atendido pelo mesmo garçom. Quase tudo foi como era. Quase.
Eu sentei naquela mesa só, logo não quis deixar a marca de sempre, que servia pra contar quantas vezes nós sentamos naquele mesmo lugar. Não sabia o que estava fazendo lá, não fazia ideia de quem passara a frequentar aquele bar, ou se você ainda passava por lá como quem não quer nada. Talvez eu só quisesse testar minha sorte, meu azar, nossa conexão.
O que quer que fosse, me surpreendeu, por existir de alguma forma. Aquele garçom que me embebedou acabou por me identificar e me entregar um pequeno pedaço de papel dobrado, quando eu já saia pela porta, e disse que fora deixado alí dois dias antes.
Ele poderia ter evitado a minha ressaca de hoje, porém me fez querer voltar a sentar lá todo santo dia.