sábado, 30 de julho de 2011

Bíblia


Eu definitivamente abri mão do motivo da minha existência, acho que foi numa quarta-feira, na última quarta-feira. Eu sabia o que estava fazendo, mas não sabia por que estava fazendo. Eu poderia evitar, eu poderia ter sorrido e dito que estava tudo bem, eu poderia ter deixado tudo ali, como estava. Não poderia, não seria eu. Por mais que não tenha mais um sonho, tenho o peso de uma existência pra carregar e, se vou existir, todos os meus aspectos existirão comigo. Minha alma estará presa ao mundo físico até que seja a hora de não mais existir, até que toda memória sobre mim se apague e qualquer registro meu se desintegre.
Eu transformei um texto de cento e vinte e sete palavras em uma bíblia, agora a carrego debaixo do braço esquerdo, como um bom cristão que segue com fé em direção ao seu templo sagrado. Há algumas diferenças: Eu não tenho um templo, eu não tenho um deus, eu não tenho fé, o pregador morreu, ninguém voltará para me salvar.
Não importa, se algo me lembra que estou vivo, isso está contido neste pequeno texto e não há nada que eu consiga entender melhor.


“- Por que você não pode ficar sozinho, sem a Yoko?

Eu posso, mas não quero. Não existe razão no mundo porque eu devesse ficar sem ela. Não existe nada mais importante do que o nosso relacionamento, nada. E nós curtimos estar juntos o tempo todo. Nós dois poderíamos sobreviver separados, mas pra quê? Eu não vou sacrificar o amor, o verdadeiro amor, por nenhuma piranha, nenhum amigo e nenhum negócio, porque no fim você acaba ficando sozinho à noite. Nenhum de nós quer isto, e não adianta encher a cama de transa, isso não funciona. Eu não quero ser um libertino. É como eu digo na música, eu já passei por tudo isso, e nada funciona melhor do que ter alguém que você ame te abraçando.

Amém.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Deidade Turva


Ele desperta do sono,
E a deidade turva presente em cada semelhante
Deixa de ser uma constante
Para ser eternamente mutante,
Como a alma do ignorante,
Que descobre em seu adiante
A possibilidade de algo marcante
Nascendo em seu semblante.

Corre na chuva, o jovem nu.
Aproveita a água que cai do paraíso.
Impreciso é o olhar na neblina.
Cego é o homem no breu.

Ele volta do portal
E encontra tudo igual,
Mas está envelhecido,
Seu coração, adormecido.
A queda d’água perdeu o curso,
Não alimenta mais o lago dos anciãos
A casa está fora do percurso
E não abriga mais irmãos.

Corre sob o Sol, o homem agasalhado.
Sonha com um oasis.
Inútil é o olhar do ignorante,
Mesmo que veja tudo.