quarta-feira, 29 de junho de 2011

Filho


Poderia dizer que vejo evolução, que rumei em direção ao que é certo e tento criar um futuro brilhante através de um presente apagado. Tenho feito o que se espera de um homem do meu tempo. As falhas do meu caráter transparecem cada dia mais e minhas fraquezas ficam expostas, porém comecei a trilhar um caminho que muitos nunca terão chance de iniciar e tantos outros teriam orgulho. Eu poderia me gabar por ser o que sou, mas o que me trouxe até aqui não é nada, se não sorte de berço.
A verdade é que volto dois anos no tempo e vejo o quanto regredi como pessoa, como ser humano. Sempre achei que perderia minha essência humana, mas não a tal ponto. Agora, sinceramente, não sei o que sou, se não alguém extremamente desalinhado com a Mãe e distante da busca da disciplina, da doutrina, da verdade, do conhecimento.
Sendo destrutivo, automaticamente me torno autodestrutivo e, esquecendo-me de conhecer a mim mesmo, passo a ser mais ignorante. Tenho morrido todos os dias em busca de caminhos fáceis e atalhos, pois o que encontro são pedras, montanhas, desespero, destruição, confusão e o mais forte tédio. Eu gostaria de poder manter todos  com quem me importo longe, mas não me restaria nem a pouca motivação que tenho pra continuar. Devo me permitir destruir ou me destruir?
O garoto nascido no dia do fogo e adotado pelas mais altas castas angelicais cansou de fugir do seu demônio interior. Melhor sair de perto, pois ele pôs o bracelete no braço esquerdo.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Existência

Sua existência ainda se resume a um olhar no fundo de um espelho.
Sua dependência ainda te prende ao mesmo medo de antes.
Aquela parede caiu, outra maior foi construída.
Uma árvore que dá frutos amargos nasceu.
Sua queda te trouxe uma ferida da qual você nunca se esquece.
Toda vez que caminha pensativo, sente o gosto amargo e a dor.
Novas cores, novo cabelo, novos amigos.
Nunca outro.
Olhar fora de foco e impessoalidade.
Gestos e expressões mostram que é diferente.
Nem todo mundo aqui é tão fútil e vazio quanto você pensa.
Nem dois em cada cem sabem o peso do que você pensa.
Mas você voltou no primeiro trem da manhã e entrou.
Não importa o que aconteça, estará sempre aqui.
Sua existência é um olhar ao redor.
Sua dependência é o segredo do universo.
A parede bloqueia o sol pela manhã.
Você recita o mantra cantando sob uma árvore.
Tua cicatriz te lembra do que já deveria ter aprendido.
O gosto amargo está tatuado em sua língua.
Aquele antigo rosto expressivo, porém vazio.
Sempre o mesmo.
Silêncio proveniente de reservas.
Aversão à rotina.
O mundo continua sendo preto e branco.
Trazer tudo à vida parece fácil, porém desinteressante.
Você pensa demais antes de desejar.
Gostaria de acordar na próxima madrugada e ver que foi embora.
Mas não importa o que aconteça, estarás sempre aqui, és parte de mim.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Arco-íris

Encontrava-se sentado em um dos bancos de uma antiga e pacata praça, pensativo, quando a leve chuva deu lugar a um tímido Sol. Observou o horizonte, buscando detalhes até onde sua vista permitia. Apreciou a brisa que chacoalhava as árvores e criava, junto ao mar, um fundo musical que o relaxava. Notou o arco-íris, que mais parecia uma ponte colorida entre um mundo e outro. – Por que não seria? – Levantou e caminhou lentamente pela costa enquanto continuava a pensar, divagar, buscar. Parou por uns segundos, acendeu um cigarro da forma que sempre fazia, tragou, respirou fundo, decidiu-se e continuou sua caminhada. Por um longo tempo, vagou como se fosse sua própria sombra, quase sem pronunciar quaisquer palavras, apenas olhando para si mesmo, tentando se encontrar, purificar-se, matar a dor. No curso dos dias, chegou a um rio, banhou-se nele e atravessou-o. Nasceu de novo enquanto viu sua antiga vida esvanecer seguindo a correnteza. Olhou através de seu reflexo na água, procurou o caminho. – Do outro lado do rio, uma vida se vai. Deste lado do rio, uma vida se inicia. – Andou sob o Sol, a chuva torrencial, a Lua, as estrelas; sobre o asfalto, a terra, a areia, a grama, a rocha. Um dia, avistou novamente o arco-íris e mudou seu caminho. Foi levado ao deserto, caminhou por dias sem direção ou rumo, encontrou uma flor de lis, colheu-a e seguiu a direção indicada. Encontrou água, comida e um homem. O homem acompanhou-o para que saísse do deserto, ensinou-o a dançar segundo a música produzida pelos astros e contou-lhe segredos, advertindo-o para somente pratica-los caso não houvesse alternativa. Ouviu calado as respostas para suas perguntas, soluções para seus problemas e os segredos do conhecimento adquirido em uma vida. Por último, o homem prometeu leva-lo onde desejava chegar. Seguiu-o até uma colina, onde havia uma árvore que se destacava. Pronunciou as palavras que lhe foram ensinadas, uma passagem se abriu. Entrou, encontrou um grande pote repleto de ouro e pedras preciosas e, sobre ele um papel amarelado no qual estava escrito:
 - Você caminhou nas sombras e sob a chuva, atravessou o deserto e nasceu de novo. O vazio pôde te mostrar o que estava oculto em seu próprio abismo e limpou-te de toda a sujeira que o soterrava. Agora teus sonhos têm forma e você tem um nome.
Deixou tudo como encontrou, saiu, pronunciou as palavras para que a passagem fosse fechada e retornou ao seu lugar de origem.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O caos no chão do meu quarto sou eu

Pensei em te escrever algo simples, compreensivel. Algo que não envolvesse signos provenientes do meu subconsciente, ou metáforas simbolistas e enteogenia. Algo que ajudasse-nos a pensar numa resposta, sem tornar necessária a busca de significados.
Pensei em falar sobre meus sonhos, meus medos, minhas alegrias, minha dor, minhas crenças, minhas dúvidas, minhas vontades, minhas obrigações e tudo o que eu pudesse tornar claro o suficiente pra fazer-te entender.
Pensei em escrever em prosa, numa folha adornada manualmente e à moda antiga, com bordas vintage e uma caligrafia bem trabalhada. Achei que funcionaria do mesmo modo se fossem versos escritos de modo espontâneo. Lembrei que imagens dizem mais que palavras.
Pensei em inícios, meios e fins, alternei as ordens, testei sinônimos e antônimos, linguagem formal, coloquial, mas não havia algo que pudesse traduzir essa mistura de ansiedades que nunca saiu de mim.
Desisti.
Agora, eu olho para o chão e só vejo o caos trazido por rascunhos de desenhos, textos e sentimentos espalhados por todo lado, mas não penso em organizar ou mudar de lugar, porque isso me faz conseguir enxergar o que nunca tinha visto. O caos no chão do meu quarto sou eu.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Um Abrir de Olhos

Acordo, abro os olhos, não estou onde costumo estar,  tudo está embaçado e confuso. No primeiro piscar de olhos, o mundo gira lentamente, enquanto a primeira pontada da dor de cabeça vem. Penso em levantar, ou dormir novamente. Penso em sair do sofá, mas só desejo estar, ou melhor, não estar. É quando sinto um peso e, ao mesmo tempo, um vazio num espaço pequeno entre o peito e o estômago. Não é fome, não é dor, só vazio. Minhas lembranças têm muito a dizer, mas eu prefiro manter-las caladas por um espaço de tempo que ainda não sei definir. Parece que a dúvida percorre minhas veias, visto que todos os períodos se resumem em indecisão, mas é só a visão de um instante, descrita por alguém que não tem como definir nada em um só momento.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Dualidade


Uma imagem distorcida no espelho.
Movimentos rápidos de sombras no escuro.
O som de um organismo em funcionamento,
A freqüência aguda do desdobrar.
Decidi olhar em teus olhos, meus olhos.
Fui fundo demais em sentimentos visíveis
E imagens audíveis que gritavam.
Ouvi o som de uma cidade agitada.
Vi carros velozes e pessoas apressadas.
Conheci o assassino e o policial,
O anjo e o demônio,
O frio e o calor,
O medo e a coragem,
Assim como toda dualidade.
Pisei na areia movediça,
Mas me agarrei ao fio de prata que pendia do mundo,
Deixando pra trás parte do que me prendia ao fundo.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Realinhar


Amor me confunde, me atormenta.
Sentir me atormenta, me transtorna.
Descargas energia associadas a um giro,
Liberação de desejo unindo-se ao cansaço.
Às vezes, isso se torna apreensão,
Às vezes, agressividade infundada.
Ódio protetor. Sem amor, sem dor.
Ele se transforma em silêncio,
Um silêncio que pode ser ouvido.
Ele se torna violência, uma agulhada no fundo da alma,
Uma voz profunda que questiona - E agora?
E, se eu surtar e fugir, ainda poderei respirar?
E, se respirar, ainda continuo sendo?
Poderia voltar ao vazio interno,
Assentimentalismo eterno.
Não mais poesias, só mentiras.
Fugi do meu lugar, preciso me realinhar,
Mas a possibilidade foge entre meus dedos.
Falta vontade, sinto falta de não sentir falta.