sábado, 19 de outubro de 2013

Sem título

Pai, você disse que antes de pedir, eu já teria.
Eu quis tudo e não pedi nada.
Eu só andei por aí aproveitando. Porque eu tinha, não tinha?
Não sei se meu bolso estava furado,
Se eu não tomei conta, se dei, se joguei fora.
Eu me encontrei jogado na rua, sujo e faminto.
Eu pedi, Pai, mas não me deram nada
E, quando não havia mais solução, eu peguei.
Eu sabia que eles viriam atrás de mim,
Eu corri e me escondi, com tudo que era deles, Pai.
Agora eles querem tudo, querem que eu devolva.
Querem me ver morto, sem nada.
Agora eu não quero nada, Pai, não vou pedir nada,
Só quero o perdão da dívida.
Quero ser absolvido, quero que esqueçam.
Você disse que antes de pedir eu já teria.
Posso ficar com o que eu já tenho?
Eu não pedi, Pai.
Sempre foi meu, certo? Por que o preço?
Não entendo.

Um místico, outro dia, me disse
Que não existe anjo bom,
Que todos eles foram embora,
E que o Senhor ficou aí em casa sozinho.
Eu te escuto, Pai, se quiser falar.
Eu já fiquei sozinho, já me senti mudo.
As vezes ninguém sabe as nossas
Intenções por trás das atitudes
E isso faz a gente parecer rude.
Eu passei por isso, Pai, pode falar.
Já me disseram que eu machuco inocentes,
Mas eu nunca peguei numa arma, Pai.
Por que eles dizem isso?
Ouvi o mesmo de você.
Será que é genético?
Eles não entendem, Pai,
Eles não querem  responsabilidade.
Eles não nasceram no meu berço.
Eu te entendo, Pai, mas não entendo seu preço.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Digressão

É impossivel dizer se é realidade ou alguma distorção desta.
Palavras transtornadas em digressão e delírios fluem.
Você não pode continuar no seu rumo. Você não consegue.
Apontar seu destino é limitador demais pra você
Escorregar por outros planos de existência parece interessante
E dentro de si mesmo provavelmente há mais

Mas vocês sabem. Todos sabem.
Vocês não podem mantê-lo satisfeito

Sorrisos eram tudo o que você queria ontem
Sorrisos te enfurecem hoje,
Quando sua alma está centrada em algo mais profundo.
Escuro, intrínseco e áspero.

Todos eles parecem cegos e idiotas
Inconscientes da verdadeira realidade
Das correntes que os retém
De suas almas sendo compradas e vendidas
De suas verdades sendo distorcidas
E sua liberdade sendo limitada por falsos provérbios.

Mas vocês sabem. Todos sabem.

Vocês nunca estiveram satisfeitos.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Colisão

Eu vi Venus e Marte colidirem
Quando ambos saíram de órbita.
Rapidamente, vi as marés subirem
E o céu ficou claro durante muitos dias.
Vermelho de um lado, azul de outro.
O por do Sol agora era verde,
Com momentos tendendo ao azul, aqui no lado vermelho.

A lua aproximou-se consideravelmente,
Quase colidindo conosco
E causando intensas e rápidas mudanças climáticas.
As ondas, agora, agrediam as cidades costeiras
E foi necessária a desocupação das mesmas.
Apesar dos transtornos, nós sobrevivemos facilmente.

Após poucas semanas em chamas
A colisão expeliu um meteoro dos restos dos planetas
Que, para a nossa sorte, atingiu apenas a Lua,
Causando enormes catástrofes à humanidade.
Os astrônomos desesperavam-se cada dia mais,
A população lançava-se de predios e precipícios,
A órbita terrestre foi alterada e previa-se que o ano agora teria 510 dias
E circundaria de forma errante o Sol.

Apesar do medo, havia uma paz diferente no ar.
O céu nos cortejava nos inícios e fins de dia,
Trazendo cores quase sempre inesperadas,
E coisas que nós humanos nunca imaginaríamos.
Os astrônomos não queriam mais prever problemas,
Pois apreciavam a visão que agora tinham do universo.
A humanidade acostumou-se a enfrentar desastres mais frequentemente,
A abandonar lugares, pessoas, objetos, visões, crenças e o que mais houvesse,
Pois sentiam-se mais conectados a si mesmos e à Terra.
Depois de tudo, ninguém mais queria impedir as mudanças.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Mesa

Já havia uns anos que eu não passava por lá, mas resolvi alterar a atual rotina e relembrar a antiga. Sentei na mesma mesa, pedi a mesma cerveja, fui atendido pelo mesmo garçom. Quase tudo foi como era. Quase.
Eu sentei naquela mesa só, logo não quis deixar a marca de sempre, que servia pra contar quantas vezes nós sentamos naquele mesmo lugar. Não sabia o que estava fazendo lá, não fazia ideia de quem passara a frequentar aquele bar, ou se você ainda passava por lá como quem não quer nada. Talvez eu só quisesse testar minha sorte, meu azar, nossa conexão.
O que quer que fosse, me surpreendeu, por existir de alguma forma. Aquele garçom que me embebedou acabou por me identificar e me entregar um pequeno pedaço de papel dobrado, quando eu já saia pela porta, e disse que fora deixado alí dois dias antes.
Ele poderia ter evitado a minha ressaca de hoje, porém me fez querer voltar a sentar lá todo santo dia.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012


Talvez minha sorte tenha mudado, estabilizado,
Mas eu continuo o mesmo perdido, estagnado.
Talvez tudo seja autorrejeição
Com um significado não decifrado,
E eu seja a própria coisa
Que sempre causou as minhas quedas.

Talvez o desperdício seja doce quando se é jovem,
Mais belo e poético.
Talvez o amor fosse a corda
Que me amarrava a todos esses pensamentos,
E talvez partir seja bom,
Pois abre novos espaços.

Talvez eu me apaixone,
Mas nunca aprenda.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Vai.

Nós sempre queremos o milagre, a facilidade, prolongar um pouco a beleza que se obtém de algo ou alguém de quem um dia a luz se apagará, seja em relação a vida de outro ou a tudo.
Eu tenho segurado, e segurado firmemente em minhas mãos algo que se extrende por todo o meu corpo, me desgastando e, assim como todo o peso que me desgasta, eu o estou descarregando para qualquer ligar livre, desejando que aquilo siga o fluxo ao qual é destinado, o melhor fluxo, tendo suas mudanças já sido criadas nas vidas das pessoas pelas quais passou. Eu te quero aqui, mas te dejeso muito mais o bem de estar onde deve estar, fazendo tudo o que quer por ser capaz de fazer. Sua voz ecoa sempre em mim, em minha personalidade, em seus exemplos e em tudo mais que foi criado ao seu redor. Se há uma comparação que posso fazer agora, é a um anjo, cuja presença traz uma brisa suave de acolhimento e tranquilidade inconfundivel.
Não há perda aqui, mas uma mudança de consciência. Eu sempre entenderei, escutarei, mas, até lá, desejarei que a luz esteja acesa e radiante.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Da manhã

Uma das melhores percepções, na minha concepção, é aquela de que você tem algo imensuravelmente maravilhoso ao seu redor, sempre teve, mas nunca se deu conta, ou passou a não notar em algum momento da vida. A volta à realidade, ou a abertura dessa nova/antiga visão te faz ser grato por cada segundo.
Assim eu me sinto em relação às manhãs frescas e ensolaradas. Que dia lindo, cara! Quando nós surgimos por aqui, seja lá no que você acredite, isso tudo já existia. O Sol, o brilho de uma árvore, a sensação de que a existência livra-se da escuridão naqueles primeiros minutos, como se lutasse a cada dia pra manter o fluxo. As coisas voltam ao movimento, todas as coisas.
Eu passei um bom tempo apreciando a noite, a liberdade de me isolar de existências mais brilhantes, mas lembrei, hoje, da paz e da energia que aquela coisa quente e luminosa pode trazer. Eu sou grato. É um quadro mental que merece ser guardado, talvez como um novo estagio.
A manhã, também, deveria ser tão esperada quanto os feriados, venerada como os santos, apreciada mais que o bom vinho; Amada. Amada porque ninguém seria capaz de cria-la do zero, porque não haveria O ciclo, porque ninguém seria capaz de notar todos os detalhes que a envolvem.
As pessoas levantam, como eu, desejando inúmeras coisas, planejando, inventando, esperando. Eu pretendo levantar, a partir de hoje, agradecendo pelo Sol, antes de pensar em toda a sujeira que o dia-a-dia em sociedade me prepara.

Assim como todos os outros, espero que esse texto sirva pra me lembrar de como eu fui capaz de ver as coisas ao meu redor, em breve, e que, diferente dos outros, esse me lembre de algo surrealmente bom.